Não mais qualquer animal

Quando miúda eu, como qualquer outra criaturinha da mesma idade, gostava de animal. Qualquer animal. Só que minha asma brônquica se juntou com minha mãe e mais meus milhões de problemas respiratórios e resolveram me traumatizar. É isso mesmo, meus amigos. Animal de estimação significa pêlos aos montes, o que quer dizer pura alegria. Não, quer dizer alergia, falta de ar, nebulizador e a famosa bombinha. É claro que eu tinha uma, como qualquer criança asmática que se preze. Então não ganhei um amiguinho peludo. Em vez disso, ganhei um peixe. Nunca esqueço do Nelsinho, meu primeiro peixe beta. Sair para escolher o peixe e a cor das pedrinhas do aquário foi uma daquelas aventuras que só a simplicidade da infância conhece. Mas é claro que ele tinha que se suicidar num dia de limpeza do aquário só para me traumatizar, como se não bastasse todo o resto. Como entender, se o aquário não era nem mesmo apertado? Não podia ser tão ruim assim.

De qualquer forma, gostava de animal. Qualquer animal. “Piolho de cobra”, daqueles pretos com amarelo, perdidos no canteiro do condomínio? Claro que eu pegava na mão sem medo e ainda brincava com eles. Também tinha o soldadinho, aquela coisinha preta voadora, com uma mancha branca de cada lado que formava um imaginável perfeito par de olhos, sair caçando e guardando vários dentro de algum vidrinho para levar para casa, deixar na janela do quarto e depois de uns dias morrerem todos, coitados. Até lesma de jardim já foi vítima do potinho de vidro. Sorte mesmo era quando algum passarinho aparecia com a asinha quebrada. Ajudar o bichinho a encontrar a mãe pardal era a maior das aventuras, enquanto arremessá-lo para cima poderia ensiná-lo a voar. Mais sorte ainda foi quando um periquito azul apareceu na portaria e o porteiro resolveu presentear eu e uma amiga. Compramos uma gaiola e ele passava dia na minha casa, dia na dela. Fugiu sabe lá como, quando estava na casa dela. Trauma de novo.

E ficava pior. Porque eu e as outras crianças tínhamos o dom de descobrir quando alguma gata invadia o condomínio e paria vários gatinhos lindos e peludos. Aí depois encontrar o esconderijo da gata dentro de alguma planta, roubar os filhotes, um para cada criança, tentar alimentá-los como se a mãe não estivesse ali para isso. Até que um morre para o desespero geral e faz a gente, com o coração partido, levar os sobreviventes de volta para a mãe. Depois ainda ganhei um coelho do diretor da escolinha onde eu estudava. Lindo, o coelho. Amor a primeira vista. Claro que minha mãe me fez devolver na semana seguinte, alegando que ele iria comer os móveis do apartamento inteiro. Trauma de novo.

Quando tudo parecia perdido, resolvi comprar um hamster. E então de novo a aventura de escolher o meu futuro amigo de todas as horas e a sua casinha. Até que durou, mas prefiro não falar do final que tomou. Parou de comer. Parou de receber a atenção merecida, talvez. Nunca mais tive um animal, nunca mais peguei bichos esquisitos no canteiro, nunca mais final trágico, pelo menos.

Hoje eu gosto de animal. E amo animal. Não mais qualquer animal. Quero dizer, não tenho mais aquela coragem de pegar em insetos e sinto aflição com qualquer um que tenha mais de quatro patas. E para falar a verdade, eles bem que poderiam me odiar, porque a minha inocência já maltratou muito animal, mas eles são tão bons que ainda gostam de mim. Acredito eu. Eles sabem que no fundo eu sempre quis ser amiga. E que eu não desisti deles. Mas por enquanto me contento em apenas dar carinho e amor para os gatinhos da minha cunhada, que são muitos. Mas ainda não desisti. Repito. Não sou Felícia.

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